terça-feira, 28 de julho de 2015

A grande cirurgia...

O dia de internamento tinha chegado. Sem conseguirmos falar muito, colocamos logo de manhã as coisas na mala do carro e fomos almoçar a casa dos meus pais.
Por muito esforço que fizéssemos, os nervos estavam à flor da pele. Um grande nó na garganta não deixava quase nem falar. E por muito que tentasse outros assuntos, nada me tirava da cabeça que no dia seguinte o meu filho teria que ser forte e superar uma grande prova!

A despedida dos meus pais foi muito dura. Ele ria-se, inocente, sem imaginar para onde iria ser levado. E todos nós estávamos completamente desfeitos...

Demos entrada pelas urgências pediátricas, conforme ordens do médico. Fomos instalados. Uma série de avaliações, medições, peso. Deram ordem para dar o último biberão às 4h da manhã. Assim fiz. Naquela noite não consegui fechar os olhos. Apenas conseguia olhar para ele e pedir a Deus que lhe desse força para tão grande prova!

A noite custou a passar... Na manhã seguinte só esperávamos ser chamados para entregá-lo no bloco. Entregar o meu anjo, sim ANJO! Dormia calmamente, sem imaginar o que o esperava... Estávamos à porta do bloco, com ele a dormir e eu sem saber como o iria entregar...


Mas, Deus coloca no nosso caminho muitos anjos para nos ajudar, para nos confortar e podermos ultrapassar as dificuldades da nossa vida. O médico assistente do neurocirurgião foi esse anjo... Chegou ao nosso lado, pediu desculpas por a cirurgia estar atrasada e conversa puxa conversa, conseguiu dar-nos uma força e uma tranquilidade que nunca pensei sentir naquele momento tão difícil! Quando demos por ela, as enfermeiras já o tinham vindo buscar e só nos restava esperar...

O médico pediu que não aguardássemos na sala. Eram demasiadas horas e só nos iria deixar mais ansiosos e nervosos. Aproveitamos para tentar almoçar algo, já que o tempo de espera seria muito e necessitávamos de energias.

Recebemos entretanto a presença dos meus pais e irmão, que apesar de não atenuarem a angústia, deram algum conforto.

Já tinham passado 4 horas da entrada no bloco e decidimos ir para a sala de espera. Sabíamos que a cirurgia seria demorada, afinal, era muito trabalho a ser feito. A cabeça do meu filho seria toda aberta, o osso da testa retirado, moldado e novamente colocado na cabeça, para, por fim, acabar a cirurgia. Mas enquanto este trabalho era feito, todos os sinais vitais tinham que ser muito bem controlados e sobretudo a perda de sangue, que constituía o maior perigo da cirurgia. Durante a mesma, levou duas transfusões de sangue...

O tempo passava, as horas passavam e nada de notícias. Chegou a hora de jantar e através de uma enfermeira conseguimos saber que ainda estavam atrasados: "Foi muito difícil colocar o cateter central"...

A espera continuava e eu só pensava que ele estava lá, de cabeça aberta há tantas horas a lutar pela vida...

7 horas e meia haviam passado... A nossa angústia estava a chegar aos limites! Espreitávamos pelo vidro da porta de 30 em 30 segundos! Deambulávamos de um lado para outro... Até que vimos o médico assistente a sair. De sorriso aberto disse-nos: "Correu tudo bem!" Mais uma vez este anjo tranquilizou o nosso coração. Logo de imediato saiu o neurocirurgião que nos explicou que havia realizado um trabalho mais profundo, tendo "criado" uma testa de adulto. Alertou que as primeiras horas eram muito importantes para a sua recuperação.

De imediato, vimos sair o nosso filho, gemendo do acordar da anestesia. Cabeça ligada e mil e um fios à sua volta. Acompanhamo-lo até aos cuidados intensivos, onde passaria os dias seguintes...




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